Algumas Considerações sobre o Tao Teh King

Algumas Considerações sobre o Tao  Teh  King

O Tao  Teh King foi escrito aproximadamente quinhentos anos A.C. (a chamada Era Cristã). Foi escrito por um homem chamado Lao Tse, Lao Tan ou Lao Kun. Este homem tinha mais de oitenta anos de idade quando escreveu o Tao. Ele fora durante muitos anos Curador da Biblioteca Real, cargo muito importante. Desgostoso com a decadência da arte de governar na China, e principalmente com a conduta de seu rei, Lao resolveu deixar o país. Tinha, repito, pelo menos oitenta anos de idade, e nunca pusera pé fora da China. Mas, resolveu ir viver na Mongólia, e dirigiu-se para a Grande Muralha solicitando passagem ao Guardião das Bordas.

Lao Tse nunca escrevera coisa alguma; no entanto era considerado um dos mais profundos pensadores da nação. O Guardião das Bordas informou-o,  com aquela sutileza característica chinesa,, de que não podia permitir que um homem de sua capacidade passasse as fronteiras sem deixar algo que resumisse, para as gerações futuras, o seu pensamento e a sua sabedoria. Citou inclusive uma antiga lei de que não era permitido a nenhum letrado que tivesse ocupado posição oficial na hierarquia governamental  deixar o país sem codificar antes, para a Biblioteca Real, um testamento intelectual e político.

Este gesto do Guardião das Bordas foi sutil porque Lao Tse era um Mestre do Tao, cuja principal característica é o silêncio, e não teria, em quaisquer outras circunstâncias, escrito coisa alguma. Mas haviam três razões fundamentais, na condição imposta pelo Guardião das Bordas, suficientes para fazer falar um taoista. Primeiro, o Guardião estava citando uma lei; segundo, o Guardião estava lembrando a Lao Tse que este havia, até bem recentemente, sido Bibliotecário Real, e era, por assim dizer, uma conseqüência deste cargo que lhe fosse requerido escrever algo para a biblioteca; e terceiro, Lao Tse queria sair da China, e ir para a Mongólia, e a maneira mais fácil, mais eficiente, mais silenciosa de conseguir este desejo, no momento, falar. E, portanto, Lao Tse “falou” – isto é, escreveu o Livro do Tao. Assim Lao Tse entrou na Mongólia inóspita e selvagem, contra as investidas de cujas tribos os civilizados chineses haviam levantado aquela maravilha nunca ultrapassada em matéria de fortificação, a Grande Muralha.

De que trata o Livro do Tao? Da arte de governar – a arte mais simples e mais negligenciada do mundo; a arte que, enquanto foi praticada na China, conservou viva e unida uma cultura durante sete mil anos – mais tempo do que qualquer outra nação jamais  perdurou na história da humanidade. Lembro aqui que mesmo o Egipto durou menos – seus registros não alcançam além de cinco mil anos. Em terceiro lugar vem o Japão.

Lao Tse escr4veu o livro tendo em mente o seu rei (cuja conduta o desgostara a tal ponto que resolvera deixar a China) e os futuros reis da China – não diremos na “esperança” de que lhe seguissem os conselhos, mas para outorgar-lhes a oportunidade de assim fazerem, se o quisessem. Porém, os governantes da China não quiseram seguir os conselhos da Lao Tse – e o resultado foi que uma nação que durara sete mil anos foi conquistada em poucos séculos pelos bárbaros da Mongólia, e transformada no império dos Khans. Talvez seja apenas pura coincidência, o fato que Lao Tse saiu da China para ir morar na Mongólia.

A primeira condição fundamental de se governar bem uma nação é aprender a governar a si próprio.

Isto é um truísmo, e os truísmos são frequentemente desprezados. Mas os Livro da Tao, como qualquer um pode verificar, ensina a fazer precisamente isto; e é, nas palavras  dos sábios, “a suprema obra prima da sabedoria  iniciática.

Este definição – sabedoria iniciática – pode levar o céptico e o materialista a desconfiarem de que este Livro do Tao é uma tolice mística sem valor. Isto é lamentável, pois são precisamente o céptico e o materialista quem mais pode lucrar com a aplicação prática dos preceitos de Lao Tse. Digo isto porque observo que cépticos e materialistas são, em geral, homens profundamente inteligentes, moralmente corajosos ( é necessário ter muita coragem para se viver sem o apoio  da Imagem Paterna, usualmente chamada de “Deus”) e eminentemente práticos, justamente o tipo de homem que mais sucesso teria governando, e que de mais benefício seria ao povo se assumisse o governo.

Longe se ser uma tolice mística, o Livro do Tao é um conjunto de preceitos eminentemente práticos, que devem ser aplicados na vida diária de cada um que deseje conhecer aquela realidade que Lao Tse chamou de Tao, e os quais infalivelmente, assim aplicados, produzirão resultados imediatos e surpreendentes.

Mas como isto é possível? Perguntarão o céptico e o materialista. Como posso eu, “sem fazer nada”, conseguir aquilo que quereria fosse feito? Como posso eu, “ocultando-me”, brilhar? Como posso eu melhorar a vida do povo “calando-me”? Como posso eu chegar a uma posição de mando sem lutar, sem falar, sem obrar?

A base da doutrina do Tao é a seguinte:

O Universo é um contínuo. Todos os homens existimos como concentrações de energia, ilhas, por assim dizer, na mar eterno do Cosmo. Um fio de unidade básica nos une, uma harmonia universal rege a todos os nossos destinos; se quisermos, podemos dizer que estamos todos, em um certo nível de consciência, em estado de empatia uns com os outros. Nossa mente consciente não percebe, em seu estado normal na maior parte de nós, esta constante comunicação, esta constante empatia; mas nem por isto deixa o nosso inconsciente, em um certo profundo nível, de senti-la e experimenta-la. De fato, toda comunicação entre seres humanos seria impossível se um tal laço não existisse; pois a linguagem, como prova a lógica, não é um processo eficiente de comunicação de idéias; é, em si, um processo desconexo a absurdo, uma simples convenção que depende, para seu uso, de uma concordância mútua entre as mentes que a empregam.

Esta tese – o Universo é um contínuo – é básica no estudo da Física, e não é nem mesmo pela teoria dos quanta – pois os quanta necessitam, eles mesmos, de um campo para sua propagação.

Sendo o Universo um contínuo, estando os homens em constante comunicação uns com os outros, segue que não é necessário falar para nos comunicarmos com nosso próximo. Pelo contrário, existe um método mais eficiente de comunicação, que consiste em utilizar este “fio” de empatia que nos une uns aos outros e que nos faz, por assim dizer, irmãos. Este fenômeno não deve ser confundido com telepatia, que é uma atividade da mente consciente, e da qual Lao Tse teria desaprovado tanto quanto de qualquer outra forma de distúrbio.

Mas desde que este “fio” existe em um nível de nossa consciência do qual, o nosso normal estado, nós não nos tornamos cônscios, é preciso que, se quisermos utiliza-lo para comunicação, nós abandonemos os métodos “normais” de comunicação e, neste nível “normal”, nos calemos.

Esta tese, aparentemente assombrosa, é um fato, mas deve ser verificado pela prática, e a verificação é sempre individual. É inútil acreditardes no que digo – a sua fé em mim não te tornará capaz de “falar silenciosamente” ao teu próximo. É preciso que apliques as regras de Lao Tse, e que as verifique, por tua própria experiência, a realidade do que foi dito.

Mas – tu dirás – eu quero governar os homens diretamente. Eu quero sentar-me sobre um trono. Eu quero ser eleito presidente da república, pois o que está aí não serve.

Ah!…. Isto é o que tu queres, ou antes que pensas que queres; MAS SERÁ ISTO O QUE O UNIVERSO QUER?

Em outras palavras: nós “pensamos” que o povo necessita que nós o governemos; mas será que o povo necessita realmente disto. Nós queremos governar o povo; mas será que o povo QUER SER GOVERNADO POR NÓS?

Pois o TAO é a realidade intrínseca das coisas; é só pode se tornar governante de um povo aplicando o TAO aquele que é, numa determinada estação do Movimento Universal o governante natural e necessário daquele povo.

Euclydes Lacerda de Almeida

Habilidades

Postado em

17 de junho de 2017